Por Maria Dolores Fastoso para o Informes Abong*

Neste dia e todos os dias, nós mulheres do Brasil, resistimos e resistiremos à violência a que estamos expostas constantemente, na família, na rua, no transporte, no trabalho, etc. Nossa luta é quotidiana, tentando desconstruir no espaço privado e no espaço público práticas relacionais institucionalizadas pelo sistema patriarcal de dominação e opressão de nós mulheres, que desvaloriza, coisifica e despreza nosso corpo e nossa condição de mulheres, sujeitando-nos às formas mais bárbaras e cruéis da violência.

Por isso, são assassinadas por dia no Brasil 13 mulheres, segundo o Mapa da Violência 2015. E essas mortes têm cor e idade: de 54% foi o aumento de mulheres negras assassinadas de 2003 a 2013, entre 18 e 30 anos de idade.

Nos últimos meses deste ano, fatos estarrecedores foram cometidos contra nós mulheres. O primeiro, o “estupro” público sofrido pela máxima autoridade deste país, a Presidenta eleita Dilma Rousseff, a partir da imagem de um adesivo para carros que circulou no Brasil todo com ela sendo violentada pela mangueira dos postos de gasolina. Inimaginável este fato não fosse a declarada e acirrada misoginia que tem avançando de forma assustadora, promovida pela política de um Congresso machista, fundamentalista, classista, racista, rico e misógino. O segundo fato, o estupro coletivo sofrido pela adolescente do Rio de Janeiro, violência esta que se repete nos quatro cantos do País.

Estes dois fatos de violência não somente atingiram a essas duas mulheres, nos atingiu a TODAS, a partir da publicização dos mesmos e do que estes representam no nível do simbólico para a sociedade e para nós mulheres.

Nunca antes poderia ser imaginado ver publicidades orientando as mulheres a amamentar seguras nos espaços públicos. O sistema patriarcal tem tornado nosso corpo uma ameaça aos desejos incontidos dos machistas, tentando nos colocar no lugar de culpadas ou responsáveis pelas condutas alheias.

Nossos corpos nos pertencem e os defenderemos indo às ruas, reeditando a “primavera feminista”, não nos calaremos, não nos calarão.

A luta que enfrentamos dia após dia não é somente por nós, mas também visando à construção de uma sociedade livre da misoginia, da lesbofobia, do racismo, da opressão, que seja capaz de reconhecer que as diferenças não nos podem converter em desiguais relegando-nos ao lugar do doméstico, da reprodução, do anonimato, de onde conseguimos sair.

Continuaremos ocupando os espaços públicos, nos manifestando, repudiando cada ato de violência cometido com qualquer mulher deste país.

Conquistamos a Lei Maria da Penha, a Lei do Feminicídio. Mas a primeira mal saiu na sua implementação nas regiões metropolitanas, restando muito a ser feito nas cidades do interior e no campo. A segunda ainda não tem encontrado na opinião pública a importância que deveria, pois consigo traz maiores desafios ainda que a Lei Maria da Penha para a sua implementação.

O cenário político nacional não é alentador para nós mulheres, no sentido de poder conseguir mais avanços, pelo contrário, a política do governo atual é uma política de retrocessos e perdas de direitos conquistados, pelas mulheres e pelo povo, nos últimos anos.

Lutaremos nas ruas pela transformação da cultura machista, racista, lesbofóbica, reconquistando o Estado laico, reivindicando os nossos direitos sem parar e no âmbito doméstico, no dia a dia, lutaremos para mudar práticas, condutas e mentes, até conseguir transformar esta sociedade, nossa casa, num lugar livre de opressão e violência.

*Maria Dolores Fastoso é do Coletivo Mulher Vida (CMV).

Boletim De Volta às Raízes

20080110125352

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