Segunda parte da entrevista realizada com a educadora do CNMP Maria da Conceição Paiva (Solo Paiva) sobre sua participação no projeto “Criança com Todos os seus Direitos”.

Quais foram as últimas atividades do ano 2014?

Esse ano nos trabalhamos com esse grupo de mulheres, de mães, nos ficamos responsáveis pelo trabalho com as mães e famílias. O CENDHEC ficou responsável pelo trabalho de formação com a sociedade civil e nos também participamos. O Centro de Cultura Luiz Freire ficou responsável por trabalhar um processo de formação com representantes da gestão na perspectiva de trazer a intersetorialidade das ações para dentro. A ideia era chegar no final dessa formação desenvolvendo um planejamento integral que considerasse a intersetorialidade da educação, da saúde e da assistência. O que a gente chamou de formação técnico política, na tentativa de chamar a atenção da necessidade de ver a criança nessa integralidade, desenvolver uma capacidade de perceber uma criatura que não é partida, que é integral; as ações e os programas precisam ter essa mirada.

Outra tarefa foram os encontros com as famílias, que foi uma coisa que a gente fez muito durante este ano. Cada grupo produziu uma carta e essa carta traz muito quais são as intenções das famílias. A gente propôs, para as famílias com as que trabalhamos neste ano, se elas topavam para escrever uma carta sobre todas as coisas que foram trabalhadas. O objetivo da carta era sensibilizar os gestores públicos, a casa legislativa do município, a sociedade em geral para a garantia dos direitos de nossas crianças pequenas com prioridade absoluta conforme determina a Constituição Federal.

Essa carta foi um produto do trabalho do CNMP, porém a partir do trabalho realizado pelas outras organizações.

Fizemos também uma escuta das crianças sobre alimentação, sobre que elas tinham a nos dizer sobre a alimentação delas. Foi bem interessante. A gente levava os alimentos em natura para a sala de aula, e a ideia era saber que alimentos elas reconheciam, quais consumiam, que o que elas diziam que gostavam mais, a avaliação delas da alimentação escolar, que é servido e que mais gostam. Uma conversa curta, sem pretensão; sempre em escola urbana, escola rural, população tradicional. Realizar essa atividade no ambiente da escola ajudou a confirmar que esse espaço é primordial para a formação de hábitos saudáveis. Foi uma breve experiência porem demonstrou que esse espaço poderá ser promotor das diretrizes que promovem a alimentação saudável. Esse desafio precisa ser considerado como importante na ação educativa, assumido e incorporado nos projetos políticos pedagógicos e nas práticas cotidianas da cada comunidade escolar.

Que eram as férias temáticas?

As férias temáticas foram organizadas por Acari, mas os parceiros, na medida que podiam, participavam. As férias eram um evento num espaço (escola, creche, quadra) onde esse espaço tinha a expressão das ações que aquele município desenvolveu no campo da primeira infância. Era um espaço de dar visibilidade, sensibilizar sobre o tema, trazer a criança para participar; as cartas foram lidas nas férias. Essas cartas foram distribuídas nas férias e pediu-se que as mães que participaram levassem para os municípios. Participou só um homem, o resto eram mulheres.

Quais são os resultados que você acha mais importantes?

Tem algumas aprendizagens durante o projeto: a gestão compartilhada dele; o projeto proporcionou a possibilidade de dialogo com atores sociais diversos: o poder público, a sociedade civil, a população tradicional e quilombola. Assim também a questão de propor uma assistência mais estruturada da primeira infância, considerando as especificidades desse público. Acho que outra coisa foi que a gente conseguiu criar um vínculo com as comunidades tradicionais.

Após os cinco anos do trabalho, quais são suas sensações mais pessoais?

Para minha vida pessoal, foi um campo de aprendizagem muito grande; apesar de já conhecer, de viajar para os sertões (desde que eu cheguei no centro meu espaço de trabalho sempre foi o sertão e o agreste um pouco) eu acho que esses cinco anos possibilitaram uma inserção maior nesse sertaosão, nesse grande território.

Outro aprendizagem grande foi que eu nunca havia trabalhado com população tradicional (indígenas e quilombolas) e esse projeto também possibilitou isso. Foi muito legal. Eu acho que tem uma coisa de sinergia que foi criada muito boa tanto com os povos indígenas como com os quilombolas.

E outra coisa também de aprendizagem foi que o projeto foi muito extenso. Deveria ter sido, tal vez, pela ideia e pelo que ele se proponha, tinha que ser desse tamanho mesmo. Eu tinha a impressão de que a gente estava sempre passando, passando, passando. Acho que com os povos tradicionais não... mas não espaço urbano a gente era como que estivesse sempre de passagem. Isso não é legal para conseguir os resultados.

Acho que foi a primeira vez também que participei de um projeto que tem a gestão compartilhada com vários parceiros: havia momentos que foi muito difícil e outros momentos foram de muito prazer. Tinha a dor e a delícia de fazer juntos. Mas foi uma aprendizagem muito grande, de planejar juntos, de combinar juntos, de ir para o campo juntos.

Um grande desafio é mudar a cultura de trabalhar individualmente nas gestões públicas. Porque você tem as políticas (após a Constituição Federal, a política de saúde já tem a intersetorialidade como uma diretriz), a política de assistência social também já traz em sua formulação a necessidade da diretriz, mas ela é difícil de ser assumida como uma prática profissional. Eu digo que é um defeito de fabricação da formação da gente, é um defeito de cultura, de não haver diálogo. A política depende do gestor, a política depende de quem está na ponta. Essa coisa do fazer juntos é muito difícil e alguns setores com mais resistência.

Cada vez mais se confirma uma aprendizagem que eu já tenho de algum tempo: que as políticas públicas só se fazem com vontade política, com capacidade técnica, com orçamento, com participação e com desejo de fazer juntos. Porque os municípios também são muito pobres, vivem única e exclusivamente do fundo de participação, dos recursos do governo federal, muitas dessas verbas vem carimbadas já. E a qualidade técnica e a capacidade de articulação política de quem está na frente desses municípios é muito fraca. Ficam vivendo única e exclusivamente de fundos e ai não tem possibilidades de fazer convênios, buscar outros recursos para o desenvolvimento das políticas públicas. E os gestores reclamam muito da política fiscal, descentralizada, e reclamam com razão. Eles dizem: a política é municipalizada, mas o recurso é centralizado.

Veja a primeira parte da entrevista: “As aprendizagens foram várias, destaco aqui: colocar o tema da Primeira Infância na pauta política”

Sobre o Projeto Criança com Todos os seus Direitos

Boletim De Volta às Raízes

20080110125352

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